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Antônio França

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21/01/2011
Pedro Batista da Silva Curador

"Peço licença a meu Deus

com esperança e fé viva

para Deus me ajudar

e o demônio não me priva

para escrever direitinho

a história de meu padrinho

Pedro Batista da Silva"

(João da Oliveira)

 

 

Dentro da pouca literatura sobre o fenômeno Pedro Batista, e da falta de trabalhos científicos sobre a vida do mesmo, principalmente no período que antecedeu sua peregrinação no Nordeste, 1942-1945 – pois tendo chegado a Santa Brígida, em 13 de junho de 1945, já aparentando uns sessenta anos, até hoje quase nada de importante se sabe sobre ele, durante essa fase de sua vida. O beato Pedro Batista, faleceu em 11 de novembro de 1967, e 36 anos após sua morte pouco se acrescentou, de novo, sobre sua história.

Vamos tentar começar nosso simples trabalho, buscando entender em  que ambiente e região surgiu o Conselheiro Pedro Batista.

Enquanto os governos do Paraná e de Santa Catarina aguardavam a solução definitiva do litígio sobre os limites através do cumprimento das decisões do  Supremo Tribunal Federal, um fato novo surgiu na região, em 1912,  e veio contribuir para prolongar por mais alguns anos o final da disputa judicial entre as duas Unidades da Federação.

Durante o Segundo Reinado, os habitantes do Planalto, tanto na parte catarinense como na do Paraná, tomaram conhecimento das andanças de um monge italiano, João Maria de Agostini, que  por muitos anos conviveu com os habitantes da região, sem paragem certa e pregando um catolicismo rudimentar mas de contexto adequado para conquistar a confiança da gente simples dos lugares por onde passava. Espalhou-se a veneração à sua pessoa e houve quem lhe atribuísse até mesmo a prática de milagres.

Da mesma forma que aparecera, acabou partindo para local ignorado, deixando atrás de si a fama de santo entre a população humilde que o havia conhecido.

Já no período republicano surgiu outro monge, que, com o mesmo nome do anterior, atuou principalmente na região compreendida entre os rios Iguaçu e Uruguai. Na  realidade tratava-se de um estrangeiro, partidário dos federalistas do Rio Grande do Sul, na sangrenta campanha militar que se prolongou de 1892 a 1895. Sua peregrinação não teve maiores conseqüências do que reavivar no povo a lembrança do primeiro João Maria, verdadeiro santo na rude concepção dos que cultuavam a sua memória. Ao que parece, alguns outros aventureiros também se insinuaram no Planalto catarinense declarando-se portadores de supostas mensagens enviadas por "São João Maria"...

A conclusão dos trabalhos de construção da Brazil Railway, em dezembro de 1910, do trecho que faz a ligação de União da Vitória, no Paraná, com a localidade de Marcelino Ramos, no Rio Grande do Sul, atravessando de Norte a Sul o estado de Santa Catarina, deixou um saldo de 8.000 trabalhadores desempregados. Eles haviam sido recrutados em vários estados e, até mesmo, na capital Federal. Para agravar a situação, a ferrovia de acordo com as cláusulas de seu contrato com o governo, ficaria de posse das terras situadas a 15 quilômetros de cada lado dos trilhos assentados entre as referidas localidades. Ocorria, contudo, que uma parte delas já possuía proprietários estabelecidos havia muitos anos naquelas paragens.

Os "coronéis", donos das fazendas, começaram a se preocupar diante do crescimento inesperado daquela grande massa de desocupados que, errando de pouso em pouso, não trepidavam em invadir propriedades para poderem sobreviver, e também com a possível investida da Brazil Railway sobre suas propriedades.

         Nessa ocasião apareceu no município de Campos Novos, outro "monge", na pessoa de um desertor do exército e da polícia paranaense, Miguel Lucena de Boaventura, que se inculcou entre a gente do lugar como José Maria de Santo Agostinho. Era um tipo esperto, alfabetizado, e não trepidou em declarar-se sobrinho do primeiro João Maria. Agindo com grande desembaraço, arvorou-se não só em curandeiro e profeta, como, igualmente, em partidário da restauração da monarquia. Na qualidade de ex-soldado começou a agrupar os numerosos crentes que começaram a ouvir suas pregações em grupos semimilitarizados estabelecidos em acampamentos que receberam a denominação de Quadros Santos. Leitor assíduo da história de Carlos Magno, formou um corpo especial de Os Doze Pares de França.

Em meados de 1912 já conseguira José Maria reunir em Taquaruçu, no município de Curitibanos, grande número de seguidores, em sua maior parte gente expulsa das terras, os trabalhadores desempregados da construção da ferrovia, e os que, de boa fé, o aceitavam como legítimo sucessor de "São João Maria".

Os fazendeiros e as autoridades locais, seriamente preocupados com as intenções daquela gente, procuraram obter seu afastamento deslocando para as proximidades do acampamento alguns contigentes policiais. A muito custo conseguiram convencer José Maria a deixar o local com seus seguidores e buscar outras paragens. Abandonando Taquaruçu, atravessaram o rio do Peixe e passaram para a Zona do Contestado que estava sob a jurisdição do governo do Paraná – Os campos de Irani.

Esse deslocamento provocou imediatamente reação dos paranaenses, que  viram na transferência apenas uma manobra de invasão catarinense, tendente a favorecer as pretensões de Santa Catarina na velha questão de limites. Para evitar que o fato viesse prejudicar no futuro os interesses do Paraná na decisão da causa, já entregue ao julgamento do Supremo Tribunal Federal, foi ordenada a imediata expulsão do numeroso bando que acampara no Irani.

O Coronel João Gualberto de Sá Filho, comandante do Regimento de Segurança do Paraná, assumiu a chefia das tropas e, pondo-se imediatamente em marcha a caminho do sertão, enviou um aviso a José Maria, intimando-o a explicar, junto ao comando, o que pretendia com aquela expedição. O "monge" não deu resposta. Em conseqüência na madrugada de 22 de outubro de 1912, os soldados investiram sobre o acampamento dos rebeldes. A luta foi cruenta e sem quartel. O coronel, depois de haver abatido José Maria, viu-se cercado e chacinado em poucos instantes a golpes de facão.

A derrota das forças paranaenses repercutiu em todo o país, e de imediato estabeleceu-se a convicção de que se tratava de uma nova Campanha de Canudos.

O material bélico abandonado pelos soldados serviu, como acontecera na referida campanha, para armar e municiar os homens de José Maria que, com a morte de seu chefe, retiraram-se do Irani e retornaram para a região catarinense de Campos Novos, onde permaneceram por alguns meses reagrupando seus contigentes com a adesão de novas levas de sertanejos. Mais  tarde um novo chefe surgiria para comandá-los, na pessoa de um antigo pequeno comerciante, Euzébio Ferreira dos Santos, que não participara da expedição do Irani. Espalha-se a notícia de que, conforme prometera, José Maria ressuscitaria para assumir novamente o comando dos rebeldes, e que até mesmo o monge santo, João Maria, aparecera a algumas pessoas. Uma neta de Euzébio, de nome Teodora, dada como vidente, afirmava ter recebido mensagens dos monges, avisando que um Exército Encantado, sob o comando de José Maria, viria levá-los à vitória.

Forças do Exército e da Polícia de Santa Catarina, tentaram em dezembro de 1913, destruir o reduto de Taquaruçu, sem qualquer resultado positivo.

Decorridos mais alguns embates sangrentos, e discutidas várias fórmulas, consegue-se chegar a um entendimento e, no dia 20 de outubro de 1916, reunidos no Palácio do Catete, com a presença das mais representativas autoridades do País, realizou-se a cerimônia da assinatura da Convenção de Limites entre os Estados de Santa Catarina e do Paraná.

 

(Contestado, Senado Federal e Fundação Roberto Marinho, 1988 – págs.: 30 a 38 – Herculano Gomes Mathias).

Foi desse cenário que ganhou  o mundo, o Beato Pedro Batista.

De onde veio Pedro Batista da Silva?, segundo Maria Isaura Pereira de Queiroz, no seu livro, "O Messianismo no Brasil e no Mundo", "Pedro Batista nasceu, segundo consta, em Alagoas. Sucessos políticos levaram seu pai, que era da família Rocha Wanderley, a fugir para Pernambuco. Ali se criou e, aos dezessete anos, sentou praça, servindo não só em Pernambuco, mas também noutros pontos do Brasil, como Foz do Iguaçu, Ponta Grossa, tendo participado da repressão contra os jagunços do Contestado no regimento do major Aleluia Pires. Desligando-se do exército, foi marinheiro, depois estivador nos portos do Rio de Janeiro, Santos e Paranaguá. Fixou-se em Paranaguá, onde durante algum tempo foi pescador e cultivou sua roça, como caiçara. Uma visão fê-lo regressar ao Nordeste". (sic)

Viajando ao Rio de Janeiro-RJ., (2001), acompanhando minha esposa por quatro dias, a um congresso internacional de odontologia, aproveitei este período para pesquisar sobre esta possibilidade de Pedro Batista, ter servido realmente ao Exército Brasileiro, estive primeiramente no Museu Histórico do Exército, em Copacabana, como também visitei sua biblioteca, mas sem sucesso, tendo pois sido orientado por um oficial, a visitar o Arquivo Histórico do Exército, de modo que rumei para lá. Tendo como referencial, as informações da professora Isaura, e principalmente  o período da Guerra do Contestado. E não foi que numa única tarde, tive a grata satisfação, depois de debruçar-me por uma montanha de documentos, de encontrar a prova que eu estava a pesquisar, Pedro Batista, serviu mesmo como soldado no 3º Regimento de Infantaria, sob o comando de Duarte Aleluia Pires. O então soldado Pedro Batista desertou do Exército e foi condenado pelo Supremo Tribunal Militar a seis meses de prisão, com trabalhos forçados. O soldado escapou no mundo e da sentença. O registro da deserção consta do boletim n.º 309, páginas 2.016 e 2.017, de 31 de outubro de 1913.

Vamos imaginar que Pedro Batista, tenha desertado do Exército, com aproximadamente 25 anos, teria nascido em 1888, mas tem um intervalo de sua vida, que totaliza cerca de 29 anos, que seria a data da deserção 1913 e os primeiros registros de andarilho no Nordeste, que datam de 1942. Pois bem, não se sabe absolutamente nada desse período de sua existência. Nem tampouco do período de seu nascimento, infância, adolescência, somando a tudo, mais 25 anos de puro mistério. Quando ele chegou ao Arraial de Santa Brígida, 13 de junho de 1945, já aparentava seus 60 anos, tendo falecido, com aproximadamente 80 anos.

A dívida que temos para com ele, é exatamente a de pesquisar esses 54 anos, ou seja, 29 anos, após sua deserção com mais 25anos do período que a antecedeu.

Eu sempre me pergunto, como poderia  Pedro Batista ter nascido em  Alagoas?, se esse estado, é quase fronteiriço com Santa Brígida, tendo a grande maioria de seus romeiros, sido também alagoanos, de: Água Branca, Mata Grande, Piranhas, Canapi, Inhapi, Pariconha, Santana do Ipanema, Penedo, etc., minha família toda nasceu em Mata Grande, inclusive minha vó, Josefina Rodrigues França, que após a passagem de Pedro Batista, em 1943,  pelo seu sítio, chamado Sítio Saco do Jacú, Zona Rural de Mata Grande, uma das regiões mais abandonadas do Estado de Alagoas, onde as perseguições e o voto de cabresto, ditavam as ordens, na verdade até hoje é assim,  onde vivia com os seus, ela costureira e meu avó carreiro, na verdade todos pequenos agricultores, ela foi a pioneira da família a seguir o beato, tanto que, após o mesmo se fixar em Santa Brígida, ela deu 27 viagens a pé, de Mata Grande àquele arraial, distante cerca de 150 km, ou seja, ida e volta, totalizam 300 km, perfazendo no geral, 8.100 km, de pura fé e dedicação, sem deixar de citarmos que minha vó, junto com as irmãs, deram mais duas viagens a pé, de Mata Grande a Juazeiro do Norte- CE., para visitarem o Padrinho Ciço, isto é, 3.000 km, enfrentando os perigos das estradas, pousando em baixo de árvores, comendo carne seca com farinha, juntando-se a isso tudo, muita poeira e fé.

Minha vó, é só um exemplo, mas quantas outras famílias, fizeram o mesmo! – inclusive fixando-se aos pés do beato, ajuntando gente ociosa por: trabalho, justiça, solidariedade, sobrevivência e ainda por quem gastar sua fé, que era tudo que lhes restava. Pedro Batista, foi um esteio extraordinário do cabedal da fé que a eles sustentavam.

Um homem santo que conseguiu arregimentar a sua volta, fama, destacando-se também como o maior agricultor do lugar, pois  no que tocava as questões econômicas, era uma espécie de banco de seus romeiros e  de todos que recorriam a ele. Financiava todas as transações que lhe pareciam úteis – compra de caminhões, de máquinas de costura, aumento de plantações, arrendamento de terras, etc. Ele dizia ser isso uma espécie de cooperativismo, pois as oferendas e recursos com que o presenteavam serviam para emprestar aos que necessitavam de auxílio, entendendo que esses bens não são seus, e sim recursos que devem reverter em benefício da comunidade.

Sua ajuda é evidenciada, principalmente nos períodos de seca, comprando sacas de mantimentos para socorrer aos que a ele recorriam. Promovia diferentes serviços na vila e no distrito, pagando salários para substituir a roça que a estiagem aniquilou, com: construção de barragens, de estradas, de açudes, de mercado e escolas. Tornou-se o inevitável, a maior influência, política e econômica do lugar.

Por conseguinte, em 11 de novembro de 1967, morre Pedro Batista, foi um dia de horror. Tendo deixado muitos bens, questiono, onde estavam esses parentes de Alagoas que nunca apareceram para reclamarem suas heranças, a ponto do próprio, já doente, ter proposto ao Ministério da Guerra, através do Comandante da Infantaria de Paulo Afonso, município vizinho, a deixar todos os seus bens em nome do retro citado ministério, em troca do mesmo construir um Posto do referido Ministério, na cidade de Santa Brígida, para dar segurança ao seu povo, em função das perseguições do bando de Pedro Grande, que até aquela data já tinham cometido 51 crimes, como foi louvável a preocupação desse homem para com sua gente. Diante de resposta negativa, do Ministério da Guerra, tiveram  que, após sua morte, produzirem um testamento, beneficiando sua camareira, Mãeana, Maria dos Santos, (uma filha sua por adoção) e Madrinha Dodô, sua herdeira espiritual.

Quando assumi o cargo de vice prefeito do município de Santa Brígida, 1997-2000, já estava com uma consciência crítica  bem formulada a respeito, do único assunto que chama atenção para esse município, o fenômeno Pedro Batista, pois levando em consideração que a Bahia dispõe de 417 municípios, aproximadamente, 350 cidades estão no padrão de Santa Brígida, com tantos problemas semelhantes, falta de esgotamento sanitário, falta d'água, desemprego, falta de hospital, ou seja, falta quase tudo do que se é básico, para melhoria da qualidade de vida de seu povo. Então podemos vislumbrar que é uma concorrência desleal, mas quando o assunto é seu jeito peculiar de ser, Santa Brígida, passa a ser singular. E dentro dessa concepção, da importância, tomando como referencial Canudos, comecei a arregimentar um trabalho de resgate da história e cultura de Santa Brígida.  Tendo procurado o diretor de então do IRDEB, jornalista Paolo Marconi, levando comigo uma cópia do filme documentário da USP, "O Povo do Velho Pedro", (1967) para tentar colocar o município na programação do mapeamento cultural daquele Instituto, de pronto fui atendido, diante da importância do tema, pois o Paolo não conhecia nada ainda sobre Santa Brígida, conseqüência da hibernação porque passava o tema do Movimento Messiânico de Santa Brígida.

Ainda neste contexto, por coincidência, estávamos programando para o dia 11 de novembro de 1997, a primeira caminhada em rememoração aos 30 anos morte do conselheiro Pedro Batista, de modo que naquela data o IRDEB enviou uma grande equipe de técnicos para produção de um documentário, que foi intitulado "Pedro Batista o Conselheiro que deu certo", após ser exibido pela TVE, algumas vezes no estado da Bahia, essa fita foi enviada para a Fundação Padre Anchieta, TV Cultura – SP, e podemos contabilizar até hoje, que este documentário já foi reexibido por cerca de 12 vezes, em rede nacional, no Programa Documento Nordeste, dessa emissora, após uma dessas exibições, o senhor Zezito Apóstolo, Tabelião local e Líder dos Romeiros, recebera uma carta de Curitiba –PR., de uma senhora chamada Elvira Batista Luciani, dizendo que o Pedro Batista do filme, era um seu tio, que tinha viajado para o nordeste e não mais retornado, e nos pedia, fotos e outras informações sobre ele.

Logo recebi estas informações do Zezito, liguei para esta senhora, e após um grande intercâmbio, descobrimos, que o pai dela, Sr. Antonio Batista, era um dos irmãos mais novos de Pedro Batista, de igual modo falecido, e que Pedro Batista, nasceu no Município de Guaraqueçaba, zona litorânea do Paraná, e que tem um parente dele lá, chamado Antonino Batista, que exerce alguma atividade religiosa, numa comunidade rural. Guardada as devidas proporções, será que a história se repete? Por tudo que pesquisamos, e pelos fatos acima expostos, não acreditamos jamais, que Pedro Batista da Silva, fosse alagoano.

Acrescente-se a isso tudo que o próprio Pedro Batista, mesmo questionado, não falava muito sobre seu passado,  de igual modo seus romeiros, pois para ambos é importante que se continue a pensar que ele não era terreno, e sim uma reencarnação do Padre Cícero. Como muitos romeiros ainda dizem, "meu Padrinho não é desse mundo não".

Outro detalhe importante, que de certa forma serve para corroborar a acertiva de que Pedro Batista, não era nordestino, e  que seria filho daquelas pairagens do Sul, é que os habitantes rurais dessas regiões eram compostas na sua maioria por população cabocla. E, como dizia minha vó, e continua dizendo minha mãe, como também todos os romeiros, Pedro Batista, só se referia aos romeiros seus, chamando-os de "meu caboclo", denominação masculina, que ele usava tanto para se dirigir a homens ou mulheres.

Dou muita importância à história do Conselheiro Pedro Batista, que ajudou sobremaneira a uma legião de seguidores direta e indiretamente, muitos desses na linha de extrema pobreza.

Num tempo em que as pessoas, os jovens principalmente, passam ao largo, sem darem a importância devida ao "seu jeito de ser" e os adultos por culpa da ignorância, ligados mais ao mundo imaginário que também merece ser valorizado.

Eu mesmo, fui vítima desse desinteresse, - quando era Vereador do Município de Santa Brígida, (1992-1996), residindo bem próximo a casa de Pedro Batista, via, mas não enxergava tantos registros e eventos (tantas manifestações religiosas e culturais, o sincretismo religioso, sendo os índios Pankararus de Tacaratu – PE., romeiros de Pedro Batista, visitantes freqüentes, desde quando ele como andarilho no início da década de 40, passou pela aldeia dos mesmos e  fez muitos conselhos, curas, dicas de plantios, etc. E eu valorizo muito esse sincretismo, na medida em que deixa patente, o poder de persuasão de Pedro Batista, com exemplos e bons atos, que índios, detentores de muitos costumes próprios, adorem um "cara pálida", até hoje, como se fosse um santo.

Dois acontecimentos foram primordiais para o meu despertar em relação a história, cultura e religiosidade de Santa Brígida: 1- quando a ex-prefeita, Rosália França, me apresentou um exemplar do livro "Sociologia e Folclore: A dança de São Gonçalo num povoado baiano", Editora Progresso, Ed., Bahia, 1958) já esgotado, com uma dedicatória  da autora,  Maria Isaura Pereira de Queiroz, hoje Doutora pela Universidade de Paris, sob a orientação de Roger Bastide, para Pedro Batista da Silva, "Ao padrinho Pedro Batista, padrinho de todos os romeiros, cordialmente oferece, Maria Isaura Pereira de Queiroz" (sic), reeditado por nossa iniciativa com ajuda da Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia, Coleção Apoio, Ed. EGBA, 1998, após ler o livro, fiquei impressionado e orgulhoso de ter tido acesso ao mesmo, e que Santa Brígida, era importante, a ponto de na década de 50, a USP, ter  enviado uma recém formada em estudos de religião, para pesquisar sobre o fenômeno Pedro Batista, 2- Numa Semana Santa de 1994, conheci um professor alemão, Titus Riedl, que estava em Santa Brígida, fazendo pesquisa sobre a religiosidade popular, mas especificamente sobre a história da herdeira espiritual de Pedro Batista, Maria das Dores dos Santos, Madrinha Dodô, naquele dia chamei o Titus para conhecer a cidade de Paulo Afonso, ele me disse com aquele sotaque peculiar "não posso Antonio, pois vou acompanhar o grupo dos penitentes no Cemitério após a meia noite...".   Isso me serviu de lição, de modo que despertei abruptamente de uma cegueira burra, e o meu interesse, a partir desses acontecimentos, se revelou extraordinariamente, voltado sobre tudo que diz respeito história do Conselheiro Pedro Batista.

Ainda dispomos de pouca literatura sobre Pedro Batista e sua Romaria, tais como: "Sociologia e Folclore: A Dança de São Gonçalo num Povoado Baiano", (1958, e reeditado por mim em 1998) segundo livro editado, da Professora Maria Isaura Pereira de Queiroz, "O  Messianismo no Brasil e no Mundo", também de Maria Isaura Pereira de Queiroz, 1965, Ed. Alfa Omega, (traduzido para vários idiomas e reeditado em 1976),  "A Dança de São Gonçalo, fator de homogeneização numa comunidade do interior da Bahia" Revista de Antropologia, SP, junho de 1958,  "Der Sankt Gonçalo-Tanz" Staden-Jahrburch, band 6, SP 1958, "Os Penitentes. Suplemento Literário de O Estado de São Paulo, 4.11.1961 e "Política, ascensão social e liderança num povoado baiano", Comunicação ao II Congresso Brasileiro de Sociologia, 1962 (todos escritos por Maria Isaura Pereira de Queiroz).

Depois desses importantíssimos trabalhos da Professora Isaura, tivemos algumas outras obras, tais como: "Pedro Batista Líder Messiânico de Santa Brígida", de Olegário Miguez Gonzalez, (onde fui idealizador de sua edição em 1998, pela Editora EGBA), "Vida e Morte de Meu Padrinho Pedro Batista da Silva" (livro de cordel do romeiro João da Oliveira, 1970), reeditado por este professor, também na Editora EGBA, "Viva a Boa Morte" (do alemão Titus Riedl), "Ensaios 58 - Sertão e Bairro Rural, um estudo etno-sociológico sobre o sertão de Juquitiba e Santa Brígida" (Ed. Ática, SP 1979) de Lia Freitas Garcia Fukui, sobre a primeira reforma agrária voluntária que se tem conhecimento no Brasil, empreendida por Pedro Batista, doando ao Governo Federal 5.ll7 ha, aos seus romeiros, criando uma Colônia Agrícola, fixando seus seguidores à terra, até hoje, e  "A Vida de Zezito Apóstolo da Silva Líder dos Romeiros do Beato Pedro Batista" (Zezito Apóstolo da Silva, Ed. EGBA, com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, 2002).

Importante salientar, que outro importantíssimo trabalho literário está em fase de conclusão pela Professora Patricia Pessar, Titular da Disciplina de História Brasileira e Caribenha da Yale University, na cidade de New Haven- CT, nos Estados Unidos da América, essa professora , ainda uma jovem estudante, morou um ano inteiro em Santa Brígida, como pesquisadora, no início da década de 70, tendo inclusive, ido a pé de Santa Brígida a Juazeiro do Norte -CE, junto com Madrinha Dodô e sua romaria, sentindo na pele a penitência, marca maior das doutrinas de Pedro Batista. Em 1997, recebi uma carta dela, dando conta que estaria mandando três alunas suas para pesquisarem mais dados sobre Pedro Batista e sua romaria, pois estava escrevendo um livro, e na medida que desenvolvia o trabalho, percebia que muito ainda faltava para um bom resultado final do seu livro, após mandar-lhe um precioso material, ela se emocionou com tantas lembranças revividas, que resolveu retornar a Santa Brígida, após 20 anos. Atualmente o trabalho dela foi aceito para publicação pelo Duke University Press.

Mais duas obras estão sendo escritas pelos pesquisadores: José Costa Pinheiro (UNEB-CEEC) , Olegário Miguez Gonzalez (UFBA) e este humilde romeiro que pretende num, futuro próximo, conseguir apoio das instituições de pesquisas do nosso estado, como também de universidades, para oficializar-mos os registros do único movimento religioso que prosperou na Bahia..

O professor Thales de Azevedo junto com a USP (Universidade de São Paulo), FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo), CERU (Centro de Estudos Rurais e Urbanos) e o IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), foram os pioneiros dos estudos sobre o fenômeno Pedro Batista e sua romaria.

Agora, nunca podemos deixar de mencionar o verdadeiro pioneiro sobre as pesquisas cientificas do fenômeno religioso do Beato Pedro Batista, Professor Thales de Azevedo, pois desde meados de 1949 foi firmado um convênio entre o Governo do Estado da Bahia, pelo seu Departamento de Educação , e a Columbia University, de Nova York, pelo seu Departamento de Antropologia, com vistas a uma série de pesquisas socioculturais em comunidades típicas das várias regiões geo-econômicas do  Estado  em ordem à obtenção de conhecimentos que servissem de base ao planejamento da educação, da assistência médica e da administração, iniciativa do então Secretário de Educação e Saúde, Prof. Anísio S. Teixeira. Tudo isso graças a grande sensibilidade do  Governador Octávio Mangabeira. O objeto do convênio se personificou   no Programa de Pesquisas Sociais Estado da Bahia – Columbia University, sob a direção geral do prof. Charles Wagley, o prof. Thales era o diretor regional e também responsável do cumprimento do acordo por parte do Governo baiano, e do prof. L. A. Costa Pinto, como consultor.

Em uma fase ulterior o Programa de Pesquisas Sociais da Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na Bahia empreendeu outras investigações e patrocinou trabalhos realizados sob a responsabilidade de diversas organizações na Bahia, cooperando também para completar a formação profissional de estudantes brasileiros que tomaram parte nas suas equipes de field work.

Imperativo salientar, que o livro "Sociologia e Folclore, A Dança de São Gonçalo num Povoado baiano" inaugurou uma série de publicações, em conjunto com a Livraria Progresso Editora, dirigida pelo prof. Pinto de Aguiar.

No ano de 1950, o professor Thales, em companhia de Benjamin Zimmerman viajavam pelo nordeste do Estado, com vistas a escolher as comunidades que seriam objetos de estudo do referido convênio, por conseguinte, souberam da existência de um grupo de população organizado em torno de um velho chefe religioso no município de Jeremoabo.

Depois do contato do prof. Thales com Pedro Batista e sua gente, no Arraial de Santa Brígida, é que resultou esse primeiro estudo da prof. Maria Isaura Pereira de Queiroz, que aproveitando um período de férias da Universidade de são Paulo, fez a sua primeira permanência no aludido arraial, em 1956 novamente esteve lá por várias semanas.

"O interesse desse estudo está em que Santa Brígida é um dos diversos, para não dizer numerosos casos de exaltação mística e de aglutinação de populações em torno de beatos, que pelos sertões do Brasil, particularmente do Nordeste se sucedeu em mais de um século. Releva realmente notar que o fenômeno se repete com aspectos diferentes e que  tipo de mentalidade e as condições sociais, econômicas e políticas propicias ao desenvolvimento de tais movimentos também persistem apesar das mudanças culturais e sociais que se processam em nossos sertões nos últimos decênios com a abertura de estradas de rodagem, o cinema, o rádio, a penetração de novas idéias políticas e religiosas, a extensão de linhas elétricas, as obras contra as secas, a introdução de novas lavouras e a exploração incipiente das minas e das possibilidades de aproveitamento industrial das matérias-primas regionais, o adensamento demográfico, em maior número de vilas e cidades e até a formação de verdadeiros núcleos não apenas urbanos, como a maioria daqueles, mas realmente urbanos, enfim com tantos fatores de mudança que ali vem atuando mas que não atingiram ainda a estrutura fundamental e tradicional da sociedade rústica nacional, menos ainda a cultura sertaneja.

É no empenho de esclarecer a natureza do fenômeno, em um dos seus casos mais originais, que a investigação se realiza a cargo de uma investigadora que se especializou em sociologia da religião, enquanto Assistente, na Universidade de São Paulo, dos Profs. Roger Bastide e Florestan Fernandes, e nos cursos que tomou na École Pratique des Hautes Études, da Sorbonne, com mestres daquela especialidade como G. Gurvitch, Gabriel Le Bras e ainda Roger Bastide e onde defendeu tese de doutorado, intitulada "Guerre sainte au Brésil: le mouvement méssianique du Contestado". Não é este, aliás, o único tema de sua predileção e especialidade em sociologia, pois tem dedicado atenção aos fenômenos políticos, publicando trabalho igualmente valioso sobre o mandonismo em nossa vida política, alem de estudos sobre outros temas sociológicos e etnográficos em revistas de línguas portuguesa, francesa, alemã e espanhola.

A "dança de São Gonçalo num povoado baiano" é como que uma nota prévia à monografia que a Autora espera escrever sobre a comunidade de Santa Brígida e cujos delineamentos teve ocasião de expor, em uma reunião  do Seminário de Antropologia, a um grupo de professores e estudantes de Ciências Sociais baianos. Em torno de um tema de folclore local, interpretado sociologicamente, é possível aprender já bastante da cultura, da estrutura social, da economia e da religião da pequena sociedade constituída por uma parte dos habitantes do arraial e circunvizinhanças, cujos ethos, de orientação religiosa peculiar, enraíza nas mesmas antigas experiências que explicam a mentalidade, o comportamento, os tipos de personalidade, as crises que historiadores, cronistas, literatos e mesmos cientistas sociais noutras épocas e na atualidade tem abordado ao se ocuparem de Pedra Bonita, de Canudos, de Juazeiro e de outros casos menos conhecidos, uns de certa duração, outros mais efêmeros, terminando com o extermínio dos "fanáticos" pela brutalidade das armas dos "civilizados" ou com a modificação das condições de educação, de economia, de política, de religião". (Thales de Azevedo, trecho de prefácio do livro "A Dança de São Gonçalo num Povoado Baiano).

As universidades locais ainda passam ao largo sobre a historiografia da religiosidade rústica baiana. Na medida que não se interessam pela história de Santa Brígida.

Mister registrar, que tenho descoberto mais, como pesquisador, pelos estrangeiros do que com estudiosos brasileiro, a mais recente foi com Heloísa Grigs, discípula de Patricia Pessar, Yale University, que me deu conta, de mais um filme documentário sobre Santa Brígida, que se chama "Um Canto de Esperança", 1965, do cineasta baiano, Oscar Santana, da Sanni Filmes, que na verdade, nada mais é, do que uma propaganda oficial do Governo Federal, mostrando a inauguração do Núcleo Colonial, da reforma agrária, empreendida por Pedro Batista. Contudo, ainda não conseguimos uma cópia do mesmo, devido a falta de interesse dos detentores dos direitos autorais.

Algumas peculiaridades, sobre a vida de Santa Brígida, ainda não foram pesquisadas como deveriam ser, senão vejamos: Sobre o bando do pistoleiro, Pedro Grande e seus filhos, que aterrorizaram a região, por quase duas décadas, sendo muitas vezes, Pedro Batista, obrigado a decretar toque de recolher, temendo pela segurança de seus romeiros. Após a morte do Cel. João Sá, em 1958, Pedro Batista, emancipou o Distrito em 07.07.1962, através da Lei Estadual n.º 1.757, depois do término do mandato do primeiro prefeito de Santa Brígida, indicado por  Pedro Batista, Zenor Pereira Teixeira, 07.04.1963 a 07.04.1967, foi indicado por ele, o segundo prefeito, Sr. Lindoaldo Alves de Oliveira, 07.04.1967 a  31.01.1971, acredito piamente, que a escolha de Pedro Batista, por "seu Lindo", como é conhecido, se deu, pela negativa do Ministério da Guerra, em não abrir um posto do Exército naquela localidade, vendo em "seu Lindo", que era primo de Pedro Grande, mas não se dava com ele, uma resistência em potencial para combatê-lo, junto com seu grupo. E não deu outra, o Prefeito Lindoaldo liderou uma campanha, com soldados da polícia estadual, conseguindo após vários embates, escorraçar Pedro Grande e seu bando de santa Brígida. Foram presos e condenados, após cumprirem pena. O temor que ele inspirava era tão grande que um jornal de salvador estampou em manchete "Possível volta de Pedro Grande aterroriza o sertão", foram soltos, o chefe, Pedro grande que parece saltar das páginas de João Guimarães Rosa, e que morreu de velhice, no estado de São Paulo, como os filhos estão soltos, alguns casados com esposas, filhas de Santa Brígida, de modo que existe muito vínculo de comunicação com os mesmos, não querendo pois, ninguém falar a respeito, muito menos para se divulgar. Resquícios do medo ainda presente nos  seus contemporâneos. Quando Pedro Batista, faleceu, me disse, Seu Lindoaldo, que estava em Salvador, num hotel na Praça da Sé, e foi difícil encontrar um taxista que aceitasse o frete até Santa Brígida. Outro fato de valor, dito por seu Lindo, possuidor de uma memória invejável, é que os produtos de maior vendagem, na época, em santa Brígida, eram rosários e balas.

Outro fato muito raro e importante aconteceu logo após a morte do Conselheiro Pedro Batista, e  que até 1999, por ignorância nossa, ainda não teria sido estudado, é conhecido na comunidade como "Birimba Pau", após ouvir sobre esse episódio, que ocorrera desta forma: um grupo de pessoas que seguiam, Lucifer, popularmente chamado por eles de Luiz Bel, e que tinham como líder um senhor dado as questões religiosas, de nome João Gustavo, teriam rumado para Santa Brígida para tomarem o trono de Pedro Batista, que se encontrava vazio, com sua morte. Não quero me posicionar sobre  o assunto para não cometer injustiça de falhar com alguma informação, pois é outro tema muito delicado, do qual ninguém quer falar, mesmo passados, já lá vão 36 anos, muitos remanescentes ainda estão com cicatrizes abertas a respeito do assunto.

Estando em São Paulo, acompanhando novamente, minha esposa, num congresso de odontologia, aproveitei o tempo para pesquisar sobre Pedro Batista, na USP, estive com Maria Isaura e com o cineasta Sérgio Muniz, único cineasta detentor das únicas imagens de Pedro Batista vivo.  Antes de ter com eles, resolvi ir com minha esposa, numa feirinha nordestina, no centro de São Paulo, com o intuito de comprar algumas lembranças regionais para eles. E estando lá, encontrei com o Professor Luiz Mott, que até então só conhecia através da mídia, me apresentei como vice prefeito de Santa Brígida, e para minha grata surpresa, o mesmo me deu conta de que esteve por duas vezes em Santa Brígida, em 1967 e janeiro de 1968, portanto logo após a morte do beato, como auxiliar de pesquisa da Professora Maria Eunice Ribeiro Durhan (USP) e do Professor Antonio Augusto Arantes (UNICAMP), Luiz Mott, disse poder me emprestar os dois cadernos de campo, sobre os trabalhos desenvolvidos em Santa Brígida. Passados mais três anos, isto é, em 2002, eu estava elaborando um site na Internet, sobre  Pedro Batista, e fui estimulado a procurar o professor, que me passou o material, de modo que encontrei algo muito valioso sobre o "Birimba Pau", que transcrevo aqui: "

 

"Hoje resolvi ir procurar a viúva do Gustavo, para bater um papo com ela. Desde que seu marido foi assassinado, ela está morando de novo na sua casa na rua em Santa Brígida e não voltou mais ao Km 40. Ela mora numa casa grande no lado que vai para o cemitério e foi meio sigilosamente, com receio que algum romeiro interpretasse mal essa minha visita à viúva de Luiz Bel. Eu me apresentei como fazendo parte da equipe de São Paulo, e como seu Ranulfo da Farmácia me contara do ocorrido e dissera que Gustavo era um homem bom e trabalhador, resolvi procurar a viúva para saber a verdade dos fatos. Salientei bem que eu não era da polícia, pois de início percebi certa desconfiança. Ela contou-me desde o início sobre        seu finado marido.

João Gustavo era um homem bom, bom conselheiro, trabalhador – ninguém tinha intriga contra ele. Era muito devoto da Santa Cruz e membro da Irmandade. Quando chegou em 1955, pegou uma doença muito grande e o espírito falava no seu corpo. Não havia remédio que o curasse e por pouco não morreu. Passou doente sete meses na rede, com uma "cabação" na natureza, no sangue: suas veias se enchiam e esvaziavam, e seu corpo queimava que nem fogo. Ela lhe dava refresco de batata fresca e água curada. O espírito falava nele e foi pedir a Pedro Batista 3 noites de penitência: Ficava desacordado e falava de modo diferente. Quando lhe perguntavam: Quem é você? Ele respondia (o espírito): "Sou Herodes quem matou 11 mil virgens. Tenha perdão de mim!" ou então respondia: "Sou Luiz Bel que Nosso Senhor deixou tomando conta de Seu trono e na Sua ausência eu fiz com um raminho um exército de anjos que o Senhor depois condenou para os infernos". (Ela contou a história de Luiz Bel, tal como se encontra na entrevista de D. Teresa no primeiro caderno) e acrescentou que depois que Luiz Bel ter passado 1816 anos no fogo do inferno São Miguel (seu irmão) perguntou-lhe se ele queria sair do fogo. Luiz Bel respondeu que só se fosse com todos os seus anjos perdoados. São Miguel negou 2 vezes e na terceira pergunta, Nosso Senhor perdoou a Luiz Bel que se "incarnou" em Gustavo o qual foi pedir a Pedro Batista que lhe desse 3 noites de penitência para ele sair do inferno. Enquanto rezavam na igreja Luiz Bel rezava sem parar, ralhando com as pessoas que estavam em descompostura, não deixando entrar na Igreja quem estava com camisa sem manga, lábio pintado, homem com relógio no pulso, capote nas costas; as mulheres para esconder as mangas curtas botavam capote por cima, mas Luiz Bel logo as desmascarava: só dava bons conselhos, contra  a orgia.

Passou 9 dias de fala dentro da igreja, dando conselhos, mas o povo se implicou e queria brigar devido a intransigência e ousadia desse espírito. Pedro Batista mandou que ele parasse de  falar.

Passaram-se 12 anos e o espírito não o largava: e ele sempre admoestando o povo, sem ter nunca falado mal de ninguém, sem ter dito palavra má ou mangação. O povo o chamava de seu João Gustavo ou de seu Luiz Bel. Tinha um lote no Km 40 desde janeiro do ano passado e trabalhou muito lá. Nessa época mandou fazer uma Santa Cruz para ele venerar lá no seu lote do 40. Ele rezava o terço toda noite com sua família e aos poucos algumas mulheres vizinhas vieram também rezar junto com ele. Logo o povo foi falando que era "xangô". (Antes porém, de 1963 a 1964 esteve em Mata Grande e lá Gustavo começou a rezar com raminho, curava as pessoas, e o povo começou a ajuntar muito. Um delegado de lá aconselhou-o a tirar uma licença e no alvará saiu licença para "abrir sessão espírita". A mulher justificou-se: não se tratava de sessão como dos espíritas (kardecistas) , mas que era coisa de espírito, era mesmo, porque quem falava nele era o espírito de Luiz Bel. Quando Gustavo voltou para Santa Brígida trouxe a licença e sua mulher aconselhou-o a revalidá-la   em Jeremoabo. Era o delegado aqui Ranulfo farmacêutico.

O povo sempre dizendo que se tratava de xangô. Ele mandou trazer a Santa Cruz para sua casa para o povo se convencer que não eram trabalhos de xangô. Saíram do 40 ao meio dia, com muito sacrifício, debaixo do sol quente, todas as mulheres, rezando. Chegando em Santa Brígida deram a volta pelo Cruzeiro, pararam frente à casa de Pedro Batista e encaminharam-se para a casa de Gustavo. Ele havia esticado um rancho no quintal para alojar o pessoal que acompanhou a cruz. Como o povo estava cansado da caminhada sob o sol, dormiam de tarde no rancho, sendo alimentados pela mulher de Gustavo que preparava o necessário. De noite, antes de rezar o terço chegou o Sargento para tomar satisfação do que acontecia. A informante não se lembra de nada, pois ficou como que desmaiada. As mulheres e crianças que estavam na casa choravam com medo. Depois do bate-boca, o que ela sabe é que ouviu os disparos e caídos no chão seu marido e José Salú que era também velho e muito  trabalhador.

Depois que o sargento foi-se embora e cercaram a casa, começaram a ameaçar os de dentro, jogando pedras no telhado, quebraram muitas telhas. E os homens que foram presos passaram 3 dias no quartel. Seu filho também foi baleado no braço, mas superficialmente, no outro dia quando o povo tinha ido embora, a polícia deu uma batida em sua casa. Levou tudo o que eles suspeitavam: faca de cozinha, foice, tesoura e até cacos de metal e olaria. Eles futucavam a casa inteira a procura de incenso que seria a matéria que provaria tratar-se de xangô: mas debalde, pois não encontraram nada.
              Aí acabou a narração da viúva de Gustavo, e indelicadamente fui perguntando sobre os aspectos que os romeiros contaram do fato e que ela omitira. Isto é: sobre a roupa "militar" dos adeptos de Gustavo, sobre a forca, sobre os paus que foram encontrados lá, etc.
               Quanto a roupa branca que seus homens e mulheres vestiam com três fitas azuis no ombro, sua finalidade era distinguir esse grupo dos de São Gonçalo que se vestiam todos de branco. O povo vendo as fitas azuis no ombro veria de cara não se tratar dos dançadores de         São   Gonçalo.
               Quanto ao problema da forca que os romeiros e Ranulfo disseram que Gustavo prometia para seus inimigos, a mulher explicou-me: o espírito que falava nele dizia que no tempo que existia os reis, havia forca no mundo e se houvesse de novo reis, a forca haveria de voltar. Quanto a sua história que o povo diz que Gustavo ameaçava seus inimigos, não é verdade,     pois   ele     não    deixou        nenhum      inimigo!
              Outra revelação que o espírito falava pela boca de Gustavo era que quando Nosso Senhor andou pelo mundo, ele sofreu muito com os judeus, a ponto de correr na terra 70 rios de sangue quando ele foi crucificado. O Pe. Ciço dizia que o sangue desses rios penetrava          pelos          olhos          e        ouvidos      de      Nosso         Senhor.
Quanto aos paus roliços que o delegado apreendeu em sua casa não eram senão madeiras para se fazer um chiqueiro no quintal conforme o modelo dos chiqueiros de lá de Mata Grande – e o povo pensou que era para atacar ou se defender! (sic)
Fim da entrevista.
              Quero fazer ainda algumas observações sobre a família do finado Gustavo: todos comentam na cidade que esta família parece que foi alvo de alguma maldição ou praga, pois 1 mês antes de Gustavo morrer, sua filha moça, que queria se casar com um moço do lugar (que tinha um defeito físico, manco ou maneta), encontrando oposição por parte de sua família, se matou atirando-se numa lagoa ou açude perto de Santa Brígida. A família ficou muito desesperada e não tinha ainda curtido o sentimento da morte da filha quando o chefe da família foi assassinado e seu filho ferido a bala no braço. A viúva enquanto me contava esses fatos, chorava amargamente, acompanhada por mais 2 filhas e o filho acidentado. Os romeiros me contaram que há ainda 1 outro irmão mais novo que é meio quente da cabeça e grita aos 4 ventos que promete vingança pela morte de seu pai. Alguns me disseram que ele é   meio          adoidado.
              É digno de registro o fato do delegado (agora já restabelecido da fratura no crânio) ter recomendado ao povo da Romaria que tenha cuidado e se recolha mais cedo de noite, precaução contra a possível vingança do pessoal do Gustavo. E ouvi também vários comentários que o prefeito foi ameaçado de morte, sendo acusado de responsável ou cúmplice da matança do pessoal do Gustavo: Seu Lindoaldo anda sempre armado quando sai de jeep e vai para o 40 ou Paulo Afonso e ouvi dizer que muitos deixaram de pedir carona a ele com medo da vingança atingi-los inadvertidamente.
Havia em Santa Brígida, de passagem, 2 professorinhas recém-formadas que o prefeito conseguira em Mata Grande para lecionarem aqui: o prefeito ia leva-las para Mata Grande de volta (terra de Gustavo) e o povo estava com medo dessa viagem- ouvi vários comentários.
             Dei bastante importância a estes fatos relacionados com o caso do Gustavo porque está patente que se trata de um problema de disputa do poder, da decisão de quem liderará a Romaria após o desaparecimento do Velho Pedro. Um pretendente meio carismático (identificado com o xangô) foi descartado violentamente com o beneplácito de Dodô, da polícia local e também do prefeito (conforme se percebe pela sua declaração no jornal de Salvador)
             Através do que sucedeu, podemos notar claramente uma coisa: o reconhecimento por parte do grupo romeiro que em matéria de religião é atualmente Dodô quem é a "dona-da-bola": ela é a líder. Por esse episódio fica muito clara esta afirmação: quando a polícia deu a busca na casa do Gustavo, apreendeu os 20 porretes e também o braço do tal cruzeiro que foi transladado solenemente do 40 para a residência do Gustavo. Pois bem, esse cruzeiro de mais ou menos um metro por 1.60 cm ficou na Delegacia desde a prisão dos adeptos de Gustavo até o dia em que eu estava em Santa Brígida: o delegado depois que voltara de Paulo Afonso onde fora medicado, mandou dizer a Dodô que a Cruz estava a sua disposição em sua casa. E o sacristão me disse que Dodô comentava: "a cruz foi desrespeitada e profanada", e que era uma afronta à Santa Cruz ter sido usada no xangô e estar no quartel. Assim, no dia que o povo festejava Santo Amaro lá no Batoque, reuniram-se todos na igreja e em procissão, encaminharam-se ao entardecer à casa do delegado, encabeçados por Dodô. Lá chegando entrou Dodô na casa, conversou rapidamente com o policial e em seguida pegou a cruz em seus braços, comentando que era muito pesada. O cortejo fez meia-volta e retornou à igreja, com Dodô na frente com a cruz em punho. A intenção era levar esta cruz em procissão ao Batoque, mas por ser muito pesada, depositaram-na do lado direito do altar e foram festejar Santo Amaro com s cruz pequena das procissões."

No campo do cinema, ainda foi a USP, através de sua Professora Emérita, Maria Isaura Pereira de Queiroz, que enviou uma equipe multidisciplinar pelo seu Departamento de Ciências Sociais, em 1967, faziam parte: Dra. Lia Freitas Garcia Fukui, (assistente da prof. Maria Isaura, encarregada da Sociologia), juntamente com a Dra. Zeila de Brito Fabri Demartini, atualmente professora da Universidade de Campinas, Dra. Eunice Ribeiro Durhan, (de Antropologia) auxiliada pelo então aluno e hoje professor de Antropologia da USP, Dr. José Francisco Quirino dos Santos, Amazonas, psicóloga, já falecida, Prof. Dr. José Pereira de Queiroz Neto, professor da área de Geografia e da matéria "Conservação do Solo e das Riquezas Naturais", cineasta Sérgio Muniz, e o Diretor de Fotografia, Afonso Beato (trabalha atualmente com Almodóvar), que foram protagonistas de um dos melhores documentários em vídeo sobre a vida do Beato Pedro Batista, "O Povo do Velho Pedro – Anotações", único filme detentor das imagens de Pedro Batista ainda vivo, o mesmo tem duração de 68 minutos e já foi exibido em Roma, Londres e Paris, como também nas comemorações do cinqüentenário da USP em 1994. Imperativo registrar que soube da existência deste filme, através do alemão Titus Riedl, de modo que consegui entrar em contato com o citado cineasta e traze-lo a Santa Brígida, para receber um título de cidadania, de minha autoria, em 1997, exibindo, pela primeira vez para os romeiros este documentário  produzido há 30 anos, mas só naquela data mostrado nesta cidade. O engraçado é que no final da fita tem uma dedicatória que diz o seguinte: "este filme foi produzido no município de Santa Brígida de março a junho de 1967 e ao seu povo é dedicado". Foi necessário que um alemão, passados 30 anos, nos desse conta desse feito. Resultado da falta de interesse de todo o entorno das instituições de pesquisas locais.

Quando Pedro Batista chegou em Santa Brígida,  encontrara quarenta e seis casas, e tratava-se de lugar perdido, longe de tudo, de que ninguém gostava, a convivência coletiva e a solidariedade vicinal estavam em tão desuso, a ponto da capela local ter-se transformado num curral de bodes, morava dentro um rapaz com seu rebanho.

Uma vila que existia há mais de há mais de 150 anos, sem nunca se desenvolver. Provou com os trabalhos de Pedro batista e sua romaria, um crescimento repentino, a ponto de apenas 17 anos, após a chegada do beato, emancipou-se de Jeremoabo.

         Um homem com poderes extraordinários de negociação em favor dos seus seguidores, empreendedor da primeira reforma agrária voluntária que se tem conhecimento no Brasil, de modo que encerro este trabalho transcrevendo o último parágrafo do capítulo do livro de Maria Isaura, "O Messianismo no Brasil e no Mundo" o qual me causa muita emoção.

"O Governo Federal começou a instalar, na fazenda da Gameleira, um centro de colonização; retalhou-se a terra em lotes que serão cedidos aos romeiros; abriram-se novas fontes, melhoraram-se as antigas; constroem-se agora as casas, os silos, a escola, a garagem para os tratores. O engenheiro agrônomo encarregado da instalação me fala com entusiasmo na inauguração concomitante de um play-ground para as crianças, de um cinema para os adultos. Pedro Batista semanalmente vai a Gameleira inspecionar as obras; é o dono, uma vez que ainda considera a Gameleira como sua. O engenheiro explica-lhe os planos, busca sua aprovação. Quando retorna, os romeiros vêm à noitinha indagar em que pé estào os trabalhos. O Velho explica. E, no ar, ressoam as palavras mágicas que nomeiam coisas que todos desconhecem e que são ouvidas num silêncio recolhido. Até que de repente suspira uma velha: "Aqui é mesmo o céu!"."                                                   

Fim

ANTONIO FRANÇA DOS SANTOS – PESQUISADOR

 

Fonte: Antonio França
Data: 25/08/2009
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